existe amor no rock’n’roll

a lembrança do primeiro show que eu fui na vida foi do Chico Buarque – acho que no Maracanãzinho mas não tenho tanta certeza assim. lembro de estar deitada na arquibancada, dormindo, cabeça no colo da minha mãe e ela me acordar no momento em que ele entrou no palco. 

Chico foi (e ainda é) meu muso referência da vida, e habitué da vitrola de casa junto com Caetano, Gal, Bethânia e Gil. Raul Seixas. 

influência da baianidade do lado materno da família?

influência da oposição política da época?

entre finais de semana e noites de zum zum zum dos encontros em casa cresci em meio às conversas sobre passeatas, Diretas Já sem saber que estava me preparando para ser uma futura Cara-Pintada. aprendi sobre direitos e delações. aprendi sobre tortura ao mesmo tempo em que aprendi sobre compaixão.

já durante a semana meu tempo era dividido entre a escola pública-federal e o clube nas aulas de natação, jazz ou no chão da biblioteca entre livros e revistinhas aproveitados embaixo do ar condicionado. 

quando estava em casa a trilha sonora era outra, comandada pela ajudante da vez. 

quando bem pequena, Luzia, negra do sorriso largo, da ala das baianas do Salgueiro me apresentou o morro e o seu samba.  

maior um pouco me apresentaram a música romântica, brega. lembro da capa de um LP de Amado Batista e a voz que acompanhava cada sofrida canção. 

dois mundos. 

uma noite de sábado de maio de 2018 e eu vou ao cinema com minha mãe e meus tios. na tela, Paraiso Perdido. 

um filme-homenagem de Lais Bodanski a Odair José. 

com todo esse histórico é de se imaginar que me tornei mais frequentadora de festival de cinema do que das sessões blockbuster e filmes nacionais não costumam ficar de fora do meu cardápio. 

não esperava nada e saí de lá sem conseguir explicar o que aconteceu. 

filme forte, personagens fortes, cenas fortes… cores, lugares. tudo parecia tão antigo e tão atual, tudo me parecia familiar mas vindo de uma dor tão distante.

minha primeira reação foi procurar a trilha sonora do filme no Spotify. bingo! repeat. repeat. repeat.

ouço no fone, na caixa de som, no volume mais alto do carro, decoro cada letra e canto junto ao mesmo tempo que o peito aperta e a lágrima escorre. 

dedico cada música a um personagem da minha vida. 

me imagino em um palco cantando para cada um. re-significo pelo menos 100 palavras da língua portuguesa. e então percebo que lá naquele sobrevivente cinema de rua de Ipanema eu tive uma delicada aula sobre o amor. 

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