Primeiro, e talvez único, capitulo do Livro da Vida

Minha avó sempre foi de sentir muito e falar pouco, apesar de falar muito. Contava historias emendadas uma nas outras, abria parênteses, colchetes, abas, e ia longe como um fio de um novelo de lã que ela nunca tricotou para esticar todos aqueles personagens e nos fazer nos perder entre nomes e pré-nomes. E voltava. Voltava como bailarinas rodopiando as nossas mentes e enrolando os passos e fechando as frestas e janelas e colchetes e parênteses e sem perder um tom, fechava a estória. E você não sabia se buscava consciência para guardar tudo e para admirar o que foi bordado na sua frente.

Um dia decidi que era absolutamente necessário registrar tudo aquilo. Em parte porque eu nunca saberia contar nada daquilo de novo, mesmo que resumisse e buscasse no fundo na memória todos os parênteses, parentes, colchetes e abas. Eu não seria capaz. E em parte porque aquele mundo era rico demais pra se perder no silêncio que um dia viria. 

Tal qual Dom Quixote parti em busca de não perder uma batalha contra o tempo e gravar, escrever, registrar o que em uma pasta azul no tela inicial do meu computador que ingenuamente nomeei de Livro da Vida.
Tal qual Sancho Pança tomei por vida o tempo que passa sem rumo e prosa e deixei pelo caminho a ponta da lã.

Não sei onde está a pasta, onde estão as aspas, os personagens, a dança, os passos, as frestas e as janelas que que se abriram e não tive o cuidado de fechar. O vento passou e levou e só ficou a culpa. Como eu pude fazer isso?

E veio a tempestade que precedeu o silêncio e estão na minha memória até hoje.

Porque esqueci o que era mais importante de lembrar?
Que me perdoem os citados mas não era sobre vocês.

Quero suas estórias porque me lembram quem me contou, o momento na mesa da sala, o tampo de mármore branco frio, o vento fino que entrava na unica fresta da janela que poderia ficar aberta. A sentada dela na beira da cadeira, a perna pra fora, a voz baixa, a estória aparentemente interminável sendo ouvida por olhos atentos diversos que não ousavam interromper. 

Porque esqueci o que era mais importante de lembrar?
Uma vez ouvi no celular uma voz de alguém que nunca conheci. Era uma avó que deixe ou uma mensagem para uma neta. Não era eu. Não era minha.
Acho que nunca senti tanta inveja de alguém.
Ela tinha ali, em mãos, uma memória palpável de algo que ela pode esquecer e ainda continuará ali.

Eu lembro da primeira frase da ultima vez que ouvi sua voz quando depois do alô eu insisti em dizer que do outro lado era eu, mesmo sabendo que ela me conhecia há 35 anos.
“Oi minha filha, eu sei que é você”

Mas hoje o som dessa voz que ecoa em mim, é a minha.

Como eu esqueci o que era mais importante de lembrar?

Mas por que você não desistiu?

Esta foi a pergunta que ouvi de uma amiga, quando eu disse que estava toda dolorida depois de uma prova de 10km debaixo de chuva.

Não corria fazia seis anos, decidi fazer a prova duas semanas antes e 5km era tudo o que havia treinado.

Ao mesmo tempo que parecia que eu, o sofá e a TV éramos uma coisa só. Esta pergunta ficou ecoando na minha cabeça igual à música ruim quando não paramos de cantar. 

Não tinha como fugir. Respondi.

Não desisti pelo mesmo motivo que me fez insistir em uma amizade que ficou por um triz quando éramos amigas há apenas dois anos e hoje já soma mais de vinte; que me fez mudar para um país que não tinha nada que me atraísse de primeira além da oportunidade de aprender uma língua nova; que me fez enfrentar muito mais de um processo seletivo depois da minha primeira demissão.

O motivo está em mim. Ou melhor, eu sou o meu motivo.

Porque as “corridas” mais difíceis que travamos definitivamente são com a gente mesmo. E por mais clichê que pareça – é raro termos esta percepção antes dos trinta e muitos.

Eu não desisti de correr só para me lembrar que esta jornada aqui a gente começa e termina sozinhos, que quem melhor pode cuidar de mim sou eu, que cuidar de mim me dá muito (ou quase tudo) do que preciso para cuidar dos que eu amo: paciência, amor e o exercício do não-julgar. Para lembrar que o meu ir e vir é livre. E que a escolha de voltar para o mesmo lugar é uma das mais prazerosas, quando neste lugar tem um quem.

Não desisti para me lembrar que não importa a lesão – seja no joelho ou no coração, a queda, o passo mais lento ou mais apressado; quem cruza a minha linha de chegada sou eu e ninguém mais.

E você “corre”? Pra quem? Pra onde? E por quê?

jantar

Papai do Céu, desejo do fundo do meu coração que eu nunca tenha um aniversário tão desanimado assim. desejo que meus amigos não se sintam envergonhados de cantar parabéns e fazer barulho no restaurante quando o bolo aparecer de repente na minha frente.
se não, melhor ficar em casa não é mesmo?
o que salvou aquele parabéns foi aquele rostinho branquinho com grandes bochechas rosadas e cabelos de anjo com caracois ruivos iluminados pela luz internaminável daquela vela piscante.
impossível não sorrir com a cena.
mas viro o rosto e torno a olhar para a frente. os três casais na mesa redonda erguem as taças. a que será que eles brindam? a amizade? ao amor? cuidado para não engasgarem!
a gordinha de costas pra parede veste um casaco lindo, de chamois, cru, parece estar aquecida, mas certamente desconfortável. morte às vendedoras que dizem que você está ótima quando deveriam te trazer um número maior. a amiga do lado tem exatamente aquele cabelo da propaganda mal dublada de shampoo. nunca acreditei que aquilo poderia ser de verdade. a inveja toma conta da minha alma por um momento.
acho que ela disse que quando estivesse mais velha quer sair da cidade e morar no interior – o com cara de árabe e marido sentado na frente dela ri alto. “Sem wi-fi? Sem tv a cabo? Sem… (ele faz um gesto batendo o dorso dos dedos da mão direita na palma da mão esquerda)”. e ri de novo.
acho que ele quis dizer que casais mais velhos que moram no interior não tem assunto, confere produção?
o amigo careca acha graça de tudo que ele fala. ou concorda ou já não tem assunto com a esposa gordinha sentada ao lado nos dias de hoje mesmo. ou será que ele gostaria de trocar a esposa gordinha pelo galã da novela? o outro marido usa a franja dos cabelos brancos impecavelmente dividida no meio. nenhum fio se move, assim como a esposa quando ele levanta sozinho para fumar um cigarro lá fora. ela apenas respira e continua a observar a conversa da mesa. essa lei anti-tabagismo afasta os casais, ou talvez crie novos casais.
agora consigo ver parte da mesa atrás. ele limpa a garrafa de vinho com o guardanapo de pano e a coloca dentro de uma embalagem para viagem. se ele tivesse bebido aquela garrafa toda talvez eu o tivesse visto arrancar os óculos de grau, rodado aquela pashimina azul bebe no ar e dançado YMCA apoiando uma das pernas em cima da cadeira. teriamos precisado uma bela catarse emocional. mas ele apenas se levanta, veste a enorme jaqueta impermeável vermelha e vai embora.
o chão de madeira treme, as crianças não param. um deles pára na minha frente – deve ter sete anos, de gola rolê certeza é uma miniatura do pai. parece educado, acho que rouba-lo para mim. já dorme a noite toda, escolheu o time de futebol e é menos capeta que o outro 30 cm menor que surgiu de onde?
eles fogem. o conchlione me vence. a especialidade da casa vai me fazer pedir perdão por garfada a cada passo que eu der no meu caminho volta para o hotel.
o casal da mesa ao lado gastou as calorias do pedido em uma carne alta envolta em um creme que parece ser de muitos queijos. a essa altura já deve estar meio frio já que eles conversam mais do que comem. típicos franceses com aquele savoir-faire que me faz perceber que até a temperatura do noite fria parece ser diferente para eles. ela veste uma divertida camisa de seda e não pisca enquanto olha para ele falando com todo o charme e biquinho necessários envolto em uma casual porém impecável camisa jeans. o garçom gasta todo o seu latim dando boas vindas e desejando um “bon appetit!”. Ismael tem um sorriso largo e rapidamente já está sendo o fotografo oficial da outra mesa. XIS!
ele vira as costas e bela adolescente com sotaque português volta lentamente ao seu jantar. tão lentamente que sobra tempo para ela beliscar o jantar do rapaz com espinhas na rosto e ar blasé ao lado dela.
ah se ele soubesse que nunca mais irá comer um prato sozinho…
chegou a minha conta.